A chata do rolê
Para ler ouvindo:
Às vezes no meio de um almoço, às vezes num grupo de mensagens, às vezes naquela mesa barulhenta em que pedem mais uma rodada enquanto alguém faz uma piada meio atravessada, ou mesmo numa reunião... foram muitas as situações em que ouvi uma voz dentro da cabeça me dizendo: você vai falar ou vai fingir que não ouviu? E outra voz, mais cansada, mais prática, mais adulta talvez: vale a pena?
Todo mundo gosta de dizer que admira quem se posiciona, quem não passa pano, quem fala o que precisa ser dito, mas isso funciona muito melhor na teoria do que na prática, muito melhor em frases bonitas de rede social do que no silêncio que fica depois que alguém (no caso, eu) resolve interromper a harmonia para apontar que aquela piada não foi tão engraçada assim, ou que aquele comentário não precisava existir, ou que talvez, só talvez, fosse interessante pensar duas vezes antes de repetir certas coisas.
Aí, inevitavelmente, vem o rótulo, às vezes explícito, às vezes apenas sugerido no olhar, no levantar de sobrancelhas, no suspiro, na mudança rápida de assunto: a chata do rolê.
Porque tem uma expectativa, um pacto meio antigo, meio cultural, de que certas coisas sejam ignoradas em nome da leveza coletiva, da paz do grupo, da tal “boa energia”, como se apontar algo fosse sempre um gesto de estragar o ambiente. Mas as ruas da convivência humana são mais tortuosas do que a gente imagina, nelas cabem encontros e também pequenas colisões éticas, quando seguir em silêncio pode parece confortável para todos, menos para quem ouviu.
E depois que a gente percebe certas coisas, fica muito difícil desperceber. Guardar tudo cansa. Por outro lado, falar também cansa. Porque falar significa interromper, significa correr o risco de parecer pedante, exagerada, militante demais, sensível demais, qualquer coisa demais. Falar significa perceber o clima mudar, perceber alguém dizendo ‘nossa, mas precisa levar tudo tão a sério?’.
Existe um preço em ser a pessoa que fala. Venho pagando a duras e intermináveis
parcelas. Até adotei o meme (pelo menos sei - ou tento - rir de mim mesma).
Às vezes penso se não seria mais simples, de vez em quando, deixar passar. Dar aquela respirada longa, tomar um gole de água, sair para ir ao banheiro, mudar de assunto, fazer de conta que não ouvi direito. Eu entendo perfeitamente quem consegue. Até admiro, juro. Mas não consigo. Então fico presa nesse incômodo entre a vontade de ser leve e a incapacidade de ser indiferente.
Ser a pessoa consciente, que repara nas coisas, parece bonito, mas na vida real costuma vir acompanhado de um desgaste cotidiano, de olhares atravessados, de convites que diminuem, de presença que não é quista. Talvez eu esteja destinada desde sempre – e para sempre – a ser a chata do rolê.
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